Moradores associam lesões na pele a vazamento em empresa de fertilizantes na zona rural de São Luís

Moradores de uma comunidade com cerca de 70 famílias, no bairro Vila Maranhão, em São Luís, relatam coceira, queimaduras e manchas vermelhas na pele. Segundo eles, os sintomas começaram após a instalação de uma empresa de fertilizantes e passaram a ser percebidos principalmente depois de um vazamento químico, registrado em fevereiro deste ano.

A empresa Valen Fertilizantes contesta a relação entre o episódio e os problemas de saúde e aponta outras possíveis causas.

Entre os casos está o de Margarida, de 78 anos, que foi internada com dermatite seborreica e inflamação na pele. A filha afirma que a mãe não apresentava os problemas anteriormente.

“Minha mãe não tinha nada na pele, era uma pele limpa. E hoje em dia, minha mãe, tão de repente, minha mãe ficou numa situação difícil”, disse.

A avó de outra moradora, Josiane, também apresenta coceira e queimaduras. Segundo a família, ela recebeu diagnósticos diferentes durante os atendimentos: psoríase, erisipela e escabiose.

A Valenfert começou a operar em julho de 2023. A empresa, licenciada pelo órgão ambiental estadual, trabalha com armazenamento e mistura de fertilizantes. Segundo o gerente Alfredo Gonçalves, o vazamento de fevereiro foi o único registrado desde o início das operações.

Como ocorreu o vazamento

Segundo o gerente-geral da Valenfert, Alfredo Gonçalves, o vazamento ocorreu depois que resíduos de adubo presos a uma máquina foram levados pela chuva em direção à comunidade.

“A gente comprou um outro maquinário que veio de uma empresa lá de São Paulo e a gente colocou no fundo da fábrica porque era a época que não estava chovendo ainda, mas as chuvas começaram e aí solubilizou um pouco do adubo que estava grudado nessas máquinas e escorreu para a comunidade. ” informou o gerente-geral Alfredo Gonçalves.

 

O geógrafo Marcelino Farias explicou, em entrevista à TV Mirante, como fertilizantes à base de nitrogênio podem reagir ao entrar em contato com a água.

“Os fertilizantes mencionados são fontes de nitrogênio. O nitrogênio, entrando em contato com a água, sofre modificações e vira nitrato e nitrito, que são substâncias tóxicas, ou quando consumidas ou quando entram em contato com a pele humana ou com as vias aéreas.” explicou o geógrafo.

Uma dermatologista ouvida pela reportagem explicou que a exposição à amônia pode provocar coceira, ardência e queimaduras. Ela destacou, no entanto, que a avaliação depende do nível de exposição e das características das lesões.

Exames, água e medidas emergenciais

 

A pedido do Ministério Público do Maranhão (MP-MA), a Justiça determinou que a Valenfert retirasse as famílias da área e adotasse medidas emergenciais. Entre elas estava o monitoramento da situação por equipes técnicas do Estado e do município.

A empresa afirmou que realizou três ações médicas na comunidade, uma delas com a Defesa Civil, e levou profissionais de saúde ao local.

A Clínica da Gente, contratada pela empresa, informou que realizou 71 atendimentos. Segundo a unidade, os resultados não indicaram contaminação por amônia. Moradores, no entanto, afirmam que nem todos foram examinados e que algumas pessoas não receberam os resultados.

Também há divergências sobre a qualidade da água. Uma análise da Vigilância em Saúde não identificou contaminação por fertilizantes nos lençóis freáticos. Apesar disso, moradores afirmam que foram orientados a não consumir a água dos poços.

A empresa passou a fornecer galões de água mineral à comunidade. Segundo uma moradora, a água dos poços é usada apenas no banho e na lavagem de roupas. “Nós usamos a água daqui para banhar, só para banhar e lavar roupa”, relatou.

Interdição e disputa judicial

 

A comunidade cobra assistência médica, acesso aos exames e uma solução definitiva. — Foto: Reprodução/TV Mirante

A comunidade cobra assistência médica, acesso aos exames e uma solução definitiva. — Foto: Reprodução/TV Mirante

A Prefeitura de São Luís notificou a empresa por risco ambiental e interditou as atividades em fevereiro. A medida foi adotada após o registro de um derramamento de fertilizantes, ocorrido em 4 de fevereiro de 2026.

No processo, o MP afirma que o vazamento causou danos à comunidade e pede a condenação da empresa. A Valenfert nega que os problemas de saúde tenham sido provocados por suas atividades. A companhia afirma que outras empresas que atuam na região também podem estar relacionadas aos danos relatados.

O caso aguarda uma nova audiência, que deverá definir as datas da perícia e dos depoimentos das testemunhas. Segundo o juiz responsável, ainda não é possível determinar qual das versões corresponde aos fatos. A conclusão dependerá da análise do processo.

Enquanto o caso tramita na Justiça, a comunidade cobra atendimento médico, acesso aos resultados dos exames e uma solução definitiva.

“Tem gente que nasceu e se criou aqui, entendeu?”, disse uma moradora.

 

O que dizem as autoridades

 

Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) informou que acompanha a situação na Vila Maranhão por meio das equipes da Atenção Primária e da Vigilância em Saúde.

Segundo a pasta, o Centro de Saúde da Vila Maranhão oferece consultas, acompanhamento clínico, visitas domiciliares e orientações aos moradores. Agentes comunitários também fazem buscas ativas e acompanham as famílias. Leia abaixo a nota na íntegra.

“A Secretaria Municipal de Saúde (SEMUS) informa que mantém acompanhamento contínuo da situação na Vila Maranhão, por meio de uma atuação integrada entre a Atenção Primária à Saúde e as equipes de Vigilância em Saúde.

Desde a ocorrência, o Centro de Saúde da Vila Maranhão segue prestando assistência aos moradores, com consultas médicas, acompanhamento clínico, visitas domiciliares, orientações em saúde e monitoramento dos casos atendidos. Os Agentes Comunitários de Saúde permanecem realizando busca ativa e acompanhamento das famílias, reforçando as medidas preventivas.

Paralelamente, as equipes da Vigilância em Saúde continuam monitorando a qualidade da água utilizada pela comunidade, realizando coletas periódicas para análises laboratoriais, inspeções técnicas, acompanhamento dos reservatórios de abastecimento, distribuição de hipoclorito de sódio e orientações quanto ao uso de água segura. Também permanece implantado o monitoramento de doenças de veiculação hídrica e das notificações de possíveis casos de intoxicação exógena.

Ao longo da resposta ao evento, a SEMUS promoveu ações integradas de saúde na comunidade, ofertando consultas médicas, vacinação, testes rápidos, dispensação de medicamentos, educação em saúde, cadastramento de famílias, visitas domiciliares e acompanhamento dos moradores potencialmente expostos.

A Secretaria ressalta que o acompanhamento permanece ativo e que todas as ações seguem os protocolos de Emergências em Saúde Pública e as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), com monitoramento permanente das condições de saúde da população e dos fatores ambientais relacionados ao evento.

Por sua vez, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SEMMAM), informa que acerca da demanda envolvendo a empresa Valen Fertilizantes, a fiscalização se iniciou com a notícia de derramamento de fertilizantes ocorrido em 04 de fevereiro de 2026.

Em audiência realizada em fevereiro de 2026 restou determinado o monitoramento da situação por parte das equipes técnicas do Estado e Município.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente vem atuando com fiscalização e monitoramento da situação envolvendo o empreendimento, desde o começo do situação e de acordo com suas competências institucionais.

Autuou a empresa e como consequência dos danos ambientais constatados aplicou sanções de embargo, suspensão, multa simples, dentre outras.

Todas por meio da lavratura de autos de infrações que, posteriormente, foram encaminhados ao Ministério Público Estadual e ao Juízo competente.” Fonte: G1-MA

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