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Delator da Andrade Gutierrez Afirma que Lobão Era Interlocutor do Esquema de Propinas

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A história narrada por Azevedo e Barra começa ainda em 2005. Naquele ano, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Ode­brecht se uniram à Eletrobras para fazer estudos de viabilidade da obra. Quatro anos mais tarde, em 2009, representantes das três empreiteiras foram convocados pelo então ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, do PMDB, para uma reunião. Foram informados que teriam de se dividir em dois grupos para participar do leilão da obra, para passar à opinião pública a “aparência de competição” – só essa passagem já confirma de forma claríssima a formação do cartel que tomou conta das licitações na Petrobras e de estatais de outros setores.

Resignados, os executivos das empreiteiras aceitaram os termos do governo. De acordo com a delação, dividiram-se em dois consórcios, Andrade Gutierrez liderando um e Camargo Corrêa e Odebrecht o outro. Com o tempo, Camargo e Odebrecht passaram a questionar a viabilidade do projeto e desistiram. A Andrade permaneceu na “disputa”, convencida de que, pelo acordo, ganharia o leilão. Ainda no esforço de manter as aparências, o governo ajudou na montagem de um outro consórcio, que “competiria”, de mentirinha, com a Andrade. Esse consórcio alternativo foi montado por Erenice Guerra, Valter Cardeal, então diretor de Planejamento e Engenharia da Eletrobras, e por José Carlos Bumlai, pecuarista próximo ao ex-presidente Lula e também investigado na Lava Jato. O governo traiu a Andrade, que perdeu o leilão. O consórcio vencedor, criado pelo governo, tinha oito empresas sem experiência alguma na construção de hidrelétricas. Azevedo foi procurado, então, por Antonio Palocci. Segundo Azevedo, Palocci disse que a Andrade Gutierrez era a preferida do consórcio vencedor para ser a subcontratada que construiria de fato a hidrelétrica. Para isso, Azevedo devia convidar as outras duas empreiteiras que ficaram de fora, Odebrecht e Camargo, para que as três formassem um “consórcio construtor”. O preço do arranjo: o novo consórcio devia pagar 1% do valor total da obra para o PT e para o PMDB. Ou seja, R$ 150 milhões de propina – R$ 75 milhões para cada partido, de acordo com a delação.

Os ex-executivos da Andrade Gutierrez afirmam na delação que aceitaram a proposta de Palocci. E que combinaram com as demais empreiteiras do Consórcio Construtor Belo Monte a divisão do pagamento do pedágio aos partidos, proporcionalmente à participação de cada empresa no grupo. Assim, a conta ficou rachada entre Andrade Gutierrez (18%), Odebrecht (16%), Camargo Corrêa (16%), OAS (11,5%), Queiroz Galvão (11,5%), Galvão Engenharia (10%), Contern (10%), Serveng (3%), Cetenco (2%) e J. Malucelli (2%). De acordo com os delatores da Andrade, esses pagamentos foram realizados por meio de doações eleitorais às campanhas do PT e do PMDB já a partir de 2010. E prosseguiram em 2014. “O interlocutor no PT para tratar desse assunto era João Vaccari Neto. No PMDB, o interlocutor era Edison Lobão”, diz um trecho do acordo. Em 2011, Lobão “pediu e recebeu em espécie R$ 600 mil que foram entregues a um de seus filhos e abatidos da parcela destinada ao PMDB”. Em 2012, Bumlai recorreu a Azevedo para pedir ajuda. As empresas menores do consórcio estavam atrasando suas parcelas. A própria Andrade Gutierrez diminuiu o fluxo de pagamentos ao longo de 2013. E foi cobrada por isso. Vaccari, então tesoureiro do PT, procurou Azevedo em 2014 e informou que, somando as prestações atrasadas com o que seria pedido em 2014, a Andrade devia R$ 60 milhões.

O relato dos delatores é rico até em mostrar que dentro do PT havia uma clara disputa entre quem recolheria as propinas. Depois de voltar a acertar o “fluxo” de pagamentos, Azevedo diz que foi procurado por Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma e atual ministro da Comunicação Social. Edinho informou Azevedo de que o montante devido pela Andrade somava, na verdade, R$ 100 milhões. “Quando Azevedo informou que esse dinheiro já estava sendo repassado via Vaccari, houve uma discussão”, diz um trecho da delação. A pedido de um outro executivo da Andrade, Giles Azevedo, assessor especial de Dilma, foi envolvido na briga. Giles participou de uma reunião com Azevedo e Edinho, em que ficou acertado que, a partir dali, a Andrade Gutierrez “deveria canalizar seus recursos apenas a Edinho”, num total de R$ 60 milhões. Foi assim que Azevedo desenhou para os procuradores da Lava Jato a sangria em Belo Monte e como o dinheiro roubado dali abasteceu, disfarçado de doação legal, as campanhas de Dilma Rousseff e do PMDB. A Andrade se comprometeu a pagar uma multa de R$ 1 bilhão e a alterar sua relação com o setor público.

Texto extraído da Revista Época

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