Blog do Walison - Em Tempo Real

PGR defende reforço de policiamento perto da casa de Bolsonaro

Brasília (DF), 26/03/2025  - Ex-presidente Jair Bolsonaro durante declaração a imprensa após virar Réu no STF. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A Procuradoria-Geral da República (PGR) enviou nesta segunda-feira (25) ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), parecer a favor do reforço de policiamento nas proximidades da casa do ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília.

O parecer foi enviado após o ministro receber uma cópia do pedido inicial, que foi enviado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) ao diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Segundo o parlamentar, a medida é necessária para garantir a “aplicação da lei penal”.

De acordo com PGR, a PF poderá aumentar a vigilância nas proximidades da residência de Bolsonaro.

“Parece ao Ministério Público Federal de bom alvitre que se recomende formalmente à polícia que destaque equipes de prontidão em tempo integral para que se efetue o monitoramento em tempo real das medidas de cautela adotadas, adotando-se o cuidado de que não sejam intrusivas da esfera domiciliar do réu, nem que sejam perturbadores das suas relações de vizinhança”, opinou a procuradoria.

Julgamento

Na próxima terça-feira, dia 2 de setembro, Bolsonaro e mais sete aliados, que são réus do núcleo 1 da trama golpista, serão julgados pela Primeira Turma da Corte.

O ex-presidente cumpre prisão domiciliar desde o início deste mês, com uso de tornozeleira eletrônica. A medida foi determinada após Alexandre de Moraes entender que o ex-presidente violou as medidas cautelares que proibiam postagens nas redes sociais de terceiros.

Na semana passada, em outra investigação, a PF descobriu que Bolsonaro tinha um documento de asilo político para ser apresentado ao presidente da Argentina, Javier Milei. Segundo a PF, o documento estava salvo no aparelho desde 2024.

De acordo com a defesa, o documento tratava de um “rascunho”, cuja solicitação de asilo não ocorreu, e negou tentativa de fuga do país. Fonte: André Richter – Repórter da Agência Brasil

Adolescente de 17 anos é morto a tiros em frente de casa na Zona Sudeste de Teresina

Viatura do Instituto de Medicina Legal (IML), em Teresina, no Piauí — Foto: Laura Moura /g1

Um adolescente de 17 anos foi morto a tiros na madrugada deste domingo (24), no bairro Alto da Ressurreição, Zona Sudeste de Teresina.

Segundo a Polícia Militar do Piauí (PMPI), o jovem foi atingido por cerca de 20 tiros em frente a uma casa.

Policiais do 8º Batalhão encontraram o adolescente já sem vida. Testemunhas disseram que os tiros foram disparados por ocupantes de um carro.

A motivação do crime ainda é desconhecida. Até o momento, ninguém foi preso ou identificado.

O local foi isolado para a perícia do Departamento de Polícia Científica (Depoc). O corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal (IML).

O caso será investigado pelo Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Fonte: G1-PI

Malafaia provoca Moraes em culto: “Já digitalizou meus esboços?”

Na noite desta quinta-feira (21), durante o culto na sede da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), o pastor Silas Malafaia voltou a se pronunciar após ter sido alvo de mandado da Polícia Federal. Em tom firme, ele ironizou críticas sobre áudios divulgados de sua conversa com o ex-presidente Jair Bolsonaro, nos quais usou palavras de baixo calão.

“Vai cuidar da sua vida! O que o vazamento trouxe? A minha integridade e honestidade de falar o que penso. Artigo 5, inciso 10: é inviolável o sigilo das pessoas”, declarou o pastor diante da congregação.

Malafaia também criticou a decisão judicial que determinou a apreensão de seu passaporte. Segundo ele, não havia qualquer indício de tentativa de fuga que justificasse a medida.
“Covardia da perseguição e da maldade. Apreendem meu passaporte, mas eu não estou indiciado, apenas investigado. Como é que prendem o passaporte de um líder religioso respeitado?”, questionou.

O pastor contou ainda que a PF recolheu seus cadernos de pregações. Em tom irônico, disse que o material não poderia servir de prova contra ele:
“O ministro já digitalizou os cadernos? Me devolve. Será que tem alguma questão teológica que eu queira dar um golpe? Talvez sirva para alguém da PF aceitar a Cristo”, afirmou.

Malafaia negou qualquer envolvimento com os processos que investigam Jair e Eduardo Bolsonaro. Para ele, o ministro Alexandre de Moraes teria mirado a pessoa errada:
“Eu não tenho medo de ser preso, não tenho medo de nada disso. Com todos os meus defeitos e limitações, eu sou um ungido de Deus. Ele escolheu o cara errado para tocar. Em nome de Jesus, esse homem vai ser julgado pelas leis do país e pelas leis de Deus, e ele vai cair.”

O líder da Advec encerrou seu pronunciamento manifestando preocupação de que a investigação contra ele se transforme em perseguição à fé cristã no Brasil.
“Temo que essa perseguição política se torne perseguição religiosa, como acontece em outros países”, disse.

O Fuxico Gospel

Suspeito de matar PM é morto pela polícia em Cantanhede, no MA

Suspeito de matar policial foi morto pela Polícia Militar — Foto: Reprodução/Redes sociais

O suspeito de assassinar o policial militar Reginaldo Costa foi morto por equipes da Polícia Militar, na manhã deste domingo (24), na residência onde morava em Cantanhede, a 154 km de São Luís.

Segundo a polícia, o suspeito, que não teve o nome informado, já tinha passagens pelo sistema penitenciário e teria morrido em confronto com os militares , no momento em que seria preso.

A polícia informou também que apreendeu a pistola do policial e outra arma utilizada pelo criminoso na ação contra o PM Reginaldo.

Segundo as investigações, o policial Reginaldo estava dentro de um bar na entrada do povoado Ingá, também em Cantanhede, quando foi surpreendido por uma pessoa que já chegou atirando contra ele, na madrugada de sábado (23) para domingo (24).

Um policial militar foi assassinado com a tiros, na madrugada deste domingo (24), dentro de um bar na entrada do povoado Ingá, na cidade de Cantanhede, a 154 km de São Luís.

“O policial estava sentado e o criminoso se aproximou e efetuou vários disparos de arma de fogo. Logo após, o criminoso ainda pegou a arma do policial e desferiu alguns disparos e fugiu”, afirmou o major Hamilton, que comanda o batalhão que atua na cidade.

Policial militar é assassinado a tiros dentro de bar na cidade de Cantanhede, no MA — Foto: Divulgação/Redes sociais

Policial militar é assassinado a tiros dentro de bar na cidade de Cantanhede, no MA — Foto: Divulgação/Redes sociais

Após o crime, a Polícia Militar enviou reforços a Cantanhede e acredita que mais um criminoso deu fuga ao atirador, inclusive com a participação de um policial militar. Em nota, a instituição lamentou a morte do PM Reginaldo.

“É com profundo pesar que a Polícia Militar do Maranhão comunica o falecimento do Cb PM Reginaldo Costa, ocorrido neste domingo, 24 de agosto de 2025, na cidade de Cantanhede/MA. Que o Cb PM Reginaldo Costa encontre paz e descanso eterno, e que seus entes queridos encontrem conforto diante desta irreparável perda”, diz a nota. Fonte: G1-MA

Atendimentos a vítimas de acidentes de moto crescem mais de 30% no 1º semestre de 2025 em Campina Grande

Acidentes de moto crescem 34% no primeiro semestre de 2025 em Campina Grande e Sertão da PB — Foto: Reprodução / TV Cabo Branco

O Hospital de Trauma de Campina Grande registrou o aumento maior que 30% no número de atendimentos a vítimas de acidentes de moto no primeiro semestre de 2025. Foram mais de 6,3 mil pacientes nesse período, contra 4,8 mil em 2024.

Em toda a Paraíba, em 2024, foram registrados 12.991 atendimentos a vítimas de trânsito, com 859 mortes. Foram 250 óbitos só no Sertão do estado.

Também em todo o estado, apenas no primeiro semestre de 2025, já foram 8.112 ocorrências, sendo 407 mortes. Delas, 110 no Sertão.

‘Motociclistas são os mais vulneráveis

Um relatório da Polícia Rodoviária Federal realizado em Campina Grande e região, em aproximadamente 500 quilômetros de rodovias, aponta que motociclistas são os mais afetados nos acidentes de trânsito.

“A gente verifica de forma clara que os motociclistas são os mais vulneráveis. Há uma desproporcionalidade muito grande entre sinistros (acidentes) que envolvem motocicletas e a gravidade das vítimas”, afirmou Fabiano Lacerda, da PRF.

 

O estudo mostra que cidades como QueimadasLagoa Seca e Alagoa Nova registraram 56% dos acidentes com motos. E as BRs 104 e 230 concentram o maior número de ocorrências. Entre 2006 e 2022, o número de motocicletas cresceu 9,9%, enquanto o de automóveis caiu mais de 11%.

E os números têm rostos. O jovem Samuel Catanam ainda se recupera de um acidente de moto sofrido junto com uma amiga, na zona rural de Sousa, Sertão da Paraíba. A condutora perdeu o controle da direção e bateu o veículo. Ele teve traumatismo craniano e ficou dias internado no Hospital de Trauma de Campina Grande.

A mãe dele, Francisca Catanam, lembra do momento em que os médicos não acreditavam na recuperação. “Ele olhou pra mim e disse ‘não tem jeito, o caso do seu filho’. E ali acabou meu mundo”.

Custos para o sistema de saúde

 

Além das vidas impactadas, os acidentes de moto também representam altos custos para o sistema público.

O diretor do Hospital de Trauma, Sebastião Viana, explica que uma diária em enfermaria custa cerca de R$ 700 e, em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o valor chega a R$ 1.900.

“Existem cirurgias ortopédicas desde a colocação de um simples pino, que varia a partir de R$ 800, mas também, se for uma fratura patológica, podemos chegar até R$ 60 mil”, disse.

 

gasto mensal com vítimas desse tipo de acidente varia entre R$ 700 mil e R$ 1 milhão. Fonte: G1-PB

Inscrições para 427 casas do Minha Casa, Minha Vida em Parnaíba começam nesta segunda (25)

Residencial Diuza Gonçalves, empreendimento do Minha Casa, Minha Vida em Teresina — Foto: Divulgação/Caixa

As inscrições para 427 casas do Programa Minha Casa, Minha Vida em Parnaíba começam nesta segunda-feira (25). As unidades ficam no Residencial Dom Rufino IV, etapas 1 e 2.

O cadastro deve ser feito até 3 de setembro (veja o cronograma completo), exclusivamente pelo site minhacasaminhavida.parnaiba.pi.gov.br.

Podem se inscrever famílias que moram em Parnaíba, com cadastro atualizado no CadÚnico até 24 de agosto e renda bruta mensal de até R$ 2.850.

Também é preciso não ter imóvel próprio, não possuir financiamento habitacional ativo e não ter sido beneficiado por programas semelhantes nos últimos 10 anos.

Além disso, o candidato deve atender a pelo menos um critério de déficit habitacional, como viver em área de risco ou em moradia precária.

Quem não tem acesso à internet pode procurar os pontos de apoio da Prefeitura nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), na Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedesc) ou na Secretaria de Infraestrutura (Seinfra). O atendimento será feito em dias úteis.

Critérios de prioridade

 

Cada critério de prioridade vale 1 ponto. São considerados: mulher chefe de família, pessoa negra, com deficiência, idoso, criança ou adolescente, pessoa com câncer ou doença rara, mulher vítima de violência doméstica, indígena ou quilombola, morador de área de risco, beneficiário com contrato habitacional cancelado, coabitação e situação de desemprego, subemprego ou trabalho informal.

Se houver empate, a idade do responsável pela família será considerada. Caso persista, será feito sorteio público.

Reservas de unidades para grupos específicos

 

Do total de casas, 5% são reservadas para famílias com pessoa com deficiência, 5% para idosos e 5% para moradores de áreas de risco. Pelo menos 50% das unidades vão para beneficiários do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou que tenham pessoa com microcefalia.

Convocação, entrega de documentos e informações sobre o programa

A convocação para entrega de documentos será divulgada no Diário Oficial do Município, no site da Prefeitura e no portal do programa. Não haverá aviso por outros canais.

A entrega dos documentos deve ser feita entre 20 de outubro e 21 de novembro na Sedesc ou Seinfra. É preciso apresentar identidade, CPF, certidões, comprovantes de residência e renda, Folha Resumo do CadÚnico e documentos que comprovem critérios de prioridade. Erros ou falta de documentos podem causar desclassificação.

As informações oficiais sobre o programa, incluindo o edital, estão disponíveis no Diário Oficial do Município, no site da Prefeitura e no portal minhacasaminhavida.parnaiba.pi.gov.br.

Cronograma do programa Minha Casa, Minha Vida em Parnaíba

 

  • Inscrições: 25/08 a 3/09/2025
  • Análise de requisitos e pontuação: 4 a 23/09/2025
  • Lista preliminar: 24/09/2025
  • Recurso contra lista preliminar: 25 e 26/09/2025
  • Lista final: 13/10/2025
  • Convocação para entrega de documentos: 15/10/2025
  • Entrega de documentos: 20/10 a 21/11/2025
  • Análise final e envio à Caixa: a partir de 24/11/2025 Fonte: G1-PI

 

Agosto mantém baixos índices de queimadas após semana crítica

Porto Jofre (MT) 19/11/2023 – Brigadistas do Icmbio observam cortina de fumaça por conta do incêndio florestal que atige o Pantanal.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Dados do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que agosto de 2025 reverteu a tendência de aumento em queimadas no país, com exceções no Pampa e na Caatinga, e apresentou o menor número absoluto de focos desde 2019, considerando o total de focos até o dia 22 de agosto em todos os anos. O monitoramento, que indica o total de focos de queimada, aponta queda substancial, de 59% do total de focos monitorados por satélite. Na última quarta-feira (20) o Mapbiomas já havia divulgado balanço de área queimada em julho, também a menor para o mês desde 2019.

O resultado é positivo pois agosto está no meio do período seco, que vai de maio a outubro. Em 2024 o país registrava 97.742 focos de queimada entre 01/01 e 22/08. Neste ano foram registrados, no mesmo intervalo, 39.740 focos. Apenas 9 das 27 Unidades Federativas tiveram aumento no número de focos em relação ao ano passado: Amapá (40%), Bahia (18%), Ceará (6%), Paraíba (83%), Pernambuco (52%), Piauí (23%), Rondonia (47%), Rio Grande do Sul (9%) e Sergipe (91%). Destes, apenas Bahia, Piauí e Rio Grande do Sul registraram mais de 1000 focos. Mesmo com queda acentuada, de 69%, o Mato Grosso foi novamente o estado com mais focos, 19.032 registrados em 2024 frente a 5.760 registrados este ano, segundo melhor resultado do estado na série histórica do INPE, superando somente o total de focos em 2011, quando 5.468 foram registrados no período.

Os motivos potenciais são vários. Para o Mapbiomas, a melhora é relacionada principalmente ao retorno das chuvas no inverno, mas também a um uso menor do fogo como instrumento de preparação de terrenos, principalmente em estados da Amazônia. Em julho eles já haviam indicado que o Cerrado foi o bioma com maior área queimada no período, com 1,2 milhão de hectares – metade de toda a área queimada no Brasil em 2025. Na Amazônia, uma área de 1,1 milhão de hectares foi queimada entre janeiro e julho, uma redução de 70% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número representa a menor área queimada na Amazônia no período desde 2019. No levantamento do INPE esses patamares permanecem considerando o mês de agosto.

Em São Paulo, onde a Defesa Civil estadual registrou queda de 75% nos focos na primeira quinzena do mês, houve investimento em monitoramento e treinamento de equipes locais de resposta, somados às melhores condições climáticas. O estado mantém equipes de prontidão desde o começo da estiagem. Entre os dias 1º e 15 de agosto foram contabilizadas 148 ocorrências em 2025. Em 2024 foram 548.

Todo o centro, norte e noroeste paulistas estão em alerta desde a última quarta-feira, quando foram considerados áreas de risco elevado para queimadas e incêndios espontâneos. O tempo em todo o estado é quente e seco, o que deve começar a amenizar já a partir de amanhã, com mínimas em torno de 15 graus. A umidade relativa do ar também deve melhorar. Nesta sexta-feira (22), cerca de 50 municípios registraram umidade abaixo dos 20%. Em Ituverava, cidade ao norte do estado, perto de Barretos e Ribeirão Preto, foi registrada a umidade relativa mais baixa, com 11%. A região é grande produtora de cana-de-açúcar e laranja, e foi impactada fortemente pelo fogo em 2024.

Seca avança, principalmente no Nordeste

Também esta semana, a Agência Nacional de Águas (ANA) divulgou atualização de seu Monitor de Secas, informando que houve um abrandamento do fenômeno em dois estados: Amazonas e Sergipe. No sentido oposto, a seca se intensificou em julho em outros 14 estados: Alagoas, Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina e São Paulo. O Amapá e o Mato Grosso seguiram livres de seca, enquanto em Roraima o fenômeno deixou de ser observado, devido ao volume de chuvas acima da média.

A Caatinga nordestina voltou a registrar Seca Extrema, segundo pior índice no monitor da seca. Os dados da ANA abrangem o mês de julho deste ano. Fonte:

Guilherme Jeronymo – Repórter da Agência Brasil

Declaração de Bogotá avança em coordenação, mas frustra em metas

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante encontro dos Presidentes dos Estados Partes do Tratado de Cooperação Amazônica com a Sociedade Civil e Comunidades Indígenas. Plaza de Armas – Bogotá (Colômbia)

Foto: Ricardo Stuckert / PR

Chefes de Estado e representantes de países membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) divulgaram neste sábado (23) a Declaração de Bogotá, aprovada no dia anterior, na capital colombiana, durante o quinto encontro de líderes regionais, que contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O evento serviu como plataforma para atualizar compromissos dos países que compartilham a maior floresta tropical do planeta na proteção do bioma. Também foi mais uma oportunidade de engajar os vizinhos no esforço de participação na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no Pará, a primeira realizada em solo amazônico.

“O resultado da cúpula de Bogotá foi positivo. A declaração consolida o ciclo iniciado em Belém, reafirma a Declaração de Belém (2023) como o quadro de referência da cooperação regional amazônica e estabelece direções claras para ação imediata em clima, florestas, biodiversidade e restauração, bioeconomia, proteção de povos indígenas, segurança ambiental e fortalecimento institucional — com impulso direto à cooperação regional”, afirmou à Agência Brasil o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Entre os pontos da declaração, os países amazônicos reforçaram a urgência de ações coordenadas contra o desmatamento e a perda de biodiversidade, alinhadas ao Acordo de Paris, para evitar o chamado “ponto de não retorno” da floresta, um limite a partir do qual a floresta pode não conseguir mais se regenerar e entrar em um colapso irreversível, transformando-se em um bioma mais seco, menos denso, e perdendo a capacidade de absorver carbono e ajudar a regular o clima global. A falta de metas mais claras sobre isso frustrou integrantes da sociedade civil que participaram da cúpula em Bogotá.

“Em 2023 nossa luta foi para evitar que a Amazônia chegasse ao ponto de não retorno. Aqui em Bogotá o que escutamos de especialistas, lideranças indígenas, ribeirinhos, dos povos da floresta, é que a Amazônia já está no ponto de não retorno, ou seja, o risco é absoluto e os desafios ainda maiores. Os dados sobre queimadas na Amazônia no ano de 2024, principalmente na Bolívia e no Brasil, corroboram o que os povos percebem na prática. Nesse sentido, é preocupante que mais uma vez não tenhamos metas firmes e concretas contra o desmatamento e a perda da nossa floresta”, aponta João Pedro Galvão Ramalho, coordenador de articulação do coletivo Pororoka e membro do Comitê Internacional do Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA).

Para o MMA, a questão do ponto de não retorno ainda não está dada concretamente. A pasta destacou a criação, pelos governos da região, de um grupo científico especializado.

“A literatura não chegou a um consenso em relação a qual é, exatamente, o ponto de não retorno da Amazônia. Há referências importantes, como o trabalho do professor Carlos Nobre. A decisão de estabelecer o Painel Intergovernamental Técnico-Científico da Amazônia no âmbito da OTCA, que consta na declaração assinada pelos presidentes na Cúpula de Belém, em 2023, deve avançar nessa resposta”.

Combustíveis fósseis

A mesma preocupação sobre a falta de metas para o desmatamento, segundo João Pedro Ramalho, se aplica ao tema da transição energética e a exploração de combustíveis fósseis, que dividiu os países da região na declaração de Bogotá. “O tema é mencionado somente no preâmbulo da declaração e reconhece a necessidade de ‘avançar em direção a uma transição energética justa, ordenada e equitativa’. Sabemos que o governo colombiano direcionou esforços para incluir na declaração a saída de uma economia baseada no extrativismo fóssil, como a exploração de Petróleo e Gás. Já o governo brasileiro manteve sua posição oficial que é a que lemos no preâmbulo. Peru, Equador e Venezuela foram os que se opuseram”, observa.

Para o ativista climático, a exploração de combustíveis fósseis na Amazônia abre um prognóstico ameaçador para o bioma.

“Quase um quinto das novas descobertas de petróleo em todo o mundo entre 2022 e 2024 ocorreram na Amazônia. E a maioria se sobrepõe a territórios de povos e comunidades indígenas, tradicionais ou áreas de conservação. O fato de a Amazônia estar se tornando a nova fronteira para a exploração de combustíveis fósseis representa um grande perigo e ameaça essa região sensível e megadiversa que, se devidamente cuidada, desempenha um papel fundamental no enfrentamento da crise climática”.

Mecanismos de coordenação

Já a expansão da participação social no âmbito do Tratado de Cooperação Amazônica vem sendo muito celebrada pelas organizações da sociedade civil. “O presidente Lula mencionou em seu discurso a importância de se criar a OTCA Social, que é o mecanismo proposto pela sociedade civil para que ela se integre à OTCA de maneira permanente e oficial, foi uma das maiores conquistas aqui em Bogotá. O mesmo pode ser dito à implementação do Mecanismo Amazônico de Povos Indígenas, que também é um instrumento para garantir participação, mas reservado aos povos indígenas. Estes mecanismos, se e quando plenamente implementados permitirão que os povos da Amazônia sigam desempenhando o papel fundamental que tem na política regional”, avalia João Pedro Ramalho.

Outros avanços em coordenação regional, segundo o MMA, se deram no âmbito da cooperação policial, judicial e de inteligência; rastreabilidade do ouro; enfrentamento da mineração ilegal e do tráfico de fauna e flora. Em termos institucionais, a Declaração de Bogotá também impulsionou o protocolo de emenda que eleva a reunião de presidentes à instância máxima da organização, além de um compromisso com o fortalecimento da Secretaria Permanente.

Outros pontos

A Declaração de Bogotá também reafirmou a proteção diferenciada aos Povos Indígenas em Isolamento e Contato Inicial (PIACI), com base nos princípios de não contato e intangibilidade e se comprometeu em fortalecer a salvaguarda de conhecimentos ancestrais e do patrimônio cultural imaterial da Amazônia, reconhecendo sua contribuição para a sustentabilidade.

O bloco ainda apoiou, inclusive por meio de comunicado conjunto próprio, o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, da sigla em inglês), durante a COP30 em Belém, que pode beneficiar diretamente cerca de 70 países para que mantenham duas reservas florestais protegidas. Fonte: Pedro Rafael Vilela – Repórter da Agência Brasil

Iniciativas públicas e comunitárias aproximam brasileiros dos livros

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2025 - Biblioteca comunitária Atelier das Palavras, no morro da Mangueira, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“As pessoas falam que criança e adolescente não leem, mas eu discordo. É só ter novidade que eles correm para pegar livros emprestados.’’ A opinião é de Kely Louzada idealizadora da biblioteca comunitária Atelier das Palavras no morro da Mangueira, no Rio de Janeiro.

‘’Acredito que cresci bastante intelectualmente por conta da leitura”, confirma Jorge Henrique de Souza que desde criança frequentava o Atelier das Palavras, e hoje é estudante universitário e trabalha na biblioteca.

“Comecei a ajudar aqui desde criança, onde passava muito tempo do meu dia. Hoje, posso retribuir tudo que aprendi na infância, mostrando com carinho para as crianças que estão sempre aqui que a leitura faz diferença, também que aqui é um espaço onde a gente pode acolher com livros, mostrar para uma nova geração muito tecnológica que os livros existem para somar na vida deles’’, testemunha Jorge Henrique

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2025 - Jorge Arruda, estudante, frequentador da Biblioteca comunitária Atelier das Palavras, no morro da Mangueira, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2025 – O estudante Jorge Hemrique, frequentador da Biblioteca comunitária Atelier das Palavras, afirma que a leitura é importante para o seu desenvolvimento intelectual. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil – Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Atelier das Palavras foi uma das 300 bibliotecas comunitárias vencedora do prêmio Pontos de Cultura em 2024, criado pelo Ministério da Cultura (MinC). Contemplada com R$ 30 mil, a biblioteca fundada por Kely Louzada atualizou seu acervo e manteve o interesse dos pequenos e jovens leitores.

A biblioteca que fica na entrada do morro da Mangueira também se moderniza com doações de livros de interesse do seu público e participa de editais públicos para manter as estantes atualizadas.

“A gente trabalha muito com doação, mas temos também uma parceira com as secretarias de Cultura do estado e do município, que nos ajudam a estar sempre renovando a nossa estante”, diz Kely se referindo aos acervos patrocinados no ano passado pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) do governo federal que é repassado pelas secretarias de Cultura e de Educação.

Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2025 - diretora da biblioteca comunitária Atelier das Palavras, no morro da Mangueira, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 21/08/2025 – Kely Louzada, diretora da biblioteca comunitária Atelier das Palavras, no morro da Mangueira, zona norte da cidade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil – Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Desde 2024, as bibliotecas comunitárias passaram a receber livros literários para atualizar e ampliar seus acervos”, assinala Fabiano Dos Santos Piúba, Secretário de Formação Cultural, Livro e Leitura do Ministério da Cultura.

Naquele ano, o Decreto nº 12.021 expandiu o PNLD para incluir bibliotecas públicas e comunitárias. Estas bibliotecas, incluindo aquelas cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP) do Ministério da Cultura, recebem acervos literários de forma sistemática, regular e gratuita.

O Brasil tem 6.021 bibliotecas públicas (municipais e estaduais) e comunitárias aptas a receber os acervos do PNLD. Essas unidades estão registradas no Cadastro Nacional de Bibliotecas e que integram o Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP).

Ler mais

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, revela que 85% das pessoas entrevistadas gostariam de ler mais livros, evidenciando um enorme potencial para o fortalecimento do hábito de leitura, inclusive entre quem não é leitor frequente.

O Panorama do Consumo de Livros da Câmara Brasileira do Livro acrescenta que mesmo entre pessoas que não são consumidores de livros o valor da leitura é amplamente reconhecido: 84% a consideram a leitura “importante” ou “muito importante” para a carreira, lazer, aprendizado e outros aspectos

‘’Esses números comprovam que o interesse existe, mas ainda enfrentamos barreiras como acesso e desigualdade’’, pondera a presidente da Câmara Brasileira do Livro, Sevani Matos em nota enviada à Agência Brasil.

Na opinião dela, as bibliotecas e livrarias desempenham papel estratégico, “criando espaços de encontro com o livro e formando leitores em diversas regiões do país”. Para Sevani, é essencial fortalecer políticas públicas que incentivem a leitura. Fonte: Anna Karina de Carvalho – Repórter da Agência Brasil

País precisa dar prioridade política à alfabetização, diz especialista

Rio de Janeiro (RJ), 04/06/2025 – Alunos em sala de aula no Centro Integrado de Educação Pública (CIEP) 001, no Catete, na zona sul da capital fluminense. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Até o fim de 2025, o Brasil espera que ao menos 64% dos estudantes concluintes do 2º ano do ensino fundamental estejam plenamente alfabetizados. Isso significa serem capazes de ler frases e textos curtos e, ainda, localizar informações explícitas em textos curtos, como os de bilhetes ou crônicas, entre outras habilidades definidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A meta foi estabelecida no Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA) do Ministério da Educação (MEC), lançado em 2023, que opera em regime de colaboração entre a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios.

Para o CEO da Fundação Lemann, Denis Mizne, o país precisa dar prioridade política para a alfabetização e compreender que, apesar de ser considerado um assunto “velho” na pauta de educação, o problema ainda não foi superado.

Em entrevista à Agência Brasil, ele comentou os desafios a serem superados para que o patamar de 80% das crianças alfabetizadas possa ser alcançado e destacou a necessidade de melhorar a aplicação dos recursos do programa e empenhar esforços para buscar as crianças mais vulneráveis dentro de cada escola e rede de ensino.

Em 2024, a proposta do compromisso nacional foi de ter 60% dos estudantes alfabetizados, mas as redes de ensino “passaram raspando”: 59,2% dos 2 milhões de crianças brasileiras avaliadas pelos estados nessa etapa de ensino, em 42 mil escolas brasileiras, alcançaram o Indicador Criança Alfabetizada, ou seja, foram consideradas alfabetizadas. Para 2030, a meta é mais ambiciosa: no mínimo, 80% das crianças brasileiras devem saber ler e escrever ao fim do 2º ano do ensino fundamental.

O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada já tem a adesão de todos os estados e de 99% dos municípios, o que foi comemorado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a entrega do Prêmio MEC da Educação Brasileira, neste mês. Até 2024, apenas o estado de Roraima não havia firmado o CNCA.

A Fundação Lemann compõe, desde 2019, a Aliança pela Alfabetização, juntamente com o Instituto Natura e a Associação Bem Comum. O intuito é apoiar tecnicamente estados e municípios brasileiros no planejamento e na implementação de políticas públicas de alfabetização. O programa já foi implementado em 18 estados, impactando 2,8 milhões de estudantes.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com o especialista:

Agência Brasil: Como avalia o fato de o Brasil quase chegar à meta do Indicador Criança Alfabetizada para 2024, com 59,2% das crianças alfabetizadas?

Denis Mizne: A gente esteve muito perto. Pelas nossas medições, a gente já estava capturando que o Brasil tinha avançado. Então, essa é uma boa notícia. Se o Rio Grande do Sul não tivesse tido as enchentes de 2024 e só mantivesse o nível de alfabetização do ano anterior, a gente teria superado a meta como país.

Agência Brasil:  O que deve ser ajustado nas políticas públicas para que o indicador bata a marca de ter, pelo menos, 80% das crianças brasileiras alfabetizadas até 2030, rumo à universalização?

Denis Mizne: Precisamos intensificar aquilo que vem sendo feito. A primeira ação é dar prioridade política para a alfabetização. Até pouco tempo atrás, no Brasil, a alfabetização era considerada um assunto velho, que parecia ter sido superado. O que não é verdade. Em 2019, só metade das crianças eram alfabetizadas na idade certa. E na pandemia [da covid-19], somente 31%. Então, a prioridade política dada ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, com a liderança de vários governadores, em compromisso com a alfabetização, fez com que o governo federal passasse a investir nisso. Os governos estaduais ajudassem os municípios e esses pudessem ter mais condições de fazer esse trabalho. A segunda dimensão é usar bem os recursos disponíveis. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada disponibiliza bastante dinheiro para os municípios acelerarem a alfabetização, para formar os professores alfabetizadores e para ajudar as crianças que estão com mais dificuldade. Ainda tem muito dinheiro que não está sendo usado. Isso é [fruto da] dificuldade de execução da secretaria [de Educação] lá na ponta. O terceiro [foco] é que a gente siga buscando as crianças com maiores dificuldades. Dentro de cada escola, de cada município, de cada regional [de ensino], de cada estado, há crianças mais vulneráveis e escolas que têm mais dificuldades. A combinação desses esforços gera maiores ganhos na alfabetização de crianças e no progresso dessa meta.

Agência Brasil: A meta para 2030 é factível em todo o Brasil?

Denis Mizne: Os 80% de alfabetizados são factíveis, mas acho a meta tímida. Gostaria até de vê-la mais alta, mirando todas as crianças, o que é possível. Uma série de estados superaram a meta, ricos, mais pobres, em regiões diferentes do Brasil, conseguindo fazer um bom trabalho de superação dessas metas.

Agência Brasil:  O monitoramento do Indicador Criança Alfabetizada ajuda nessa tarefa?

Denis Mizne: Como todo ano sai o índice, quanto mais a gente acompanhar, gerar responsabilização e estímulos, porque há várias políticas associadas a esses índices, dinheiro do ICMS, apoio para as redes [de ensino], a gente também vai aprendendo o que funciona. Os municípios podem fazer mais trocas entre eles, entre as regionais [de ensino], entre os estados, daquilo que está funcionando e como é que se copia, no bom sentido, e leva para frente.

Agência Brasil: A fundação considera baixos os parâmetros estabelecidos sobre habilidades básicas de leitura e de escrita a serem desenvolvidas por um estudante alfabetizado? O que esperar do aprendizado de uma criança no fim do segundo ano do ensino fundamental?

Denis Mizne: É desejável e importante ter uma barra alta [na alfabetização]. Por outro lado, precisa ser uma barra crível, senão as redes [de ensino] vão desistir de perseguir. Historicamente, no Brasil, uma criança de uma família rica tem acesso em casa a livros, materiais de leitura, e o vocabulário é muito amplo, desde a primeira infância. Na pré-escola dessas crianças, já há uma introdução e elas chegam ao primeiro ano, muitas vezes, alfabetizadas. Nos estados com renda mais alta, é comum ter crianças alfabetizadas aos cinco, ou seis anos de idade. Não aos sete anos. Mas, ainda não é possível ser essa barra para o Brasil inteiro. É mais importante ter uma barra que esteja alinhada à Base Nacional Comum Curricular, quando o Brasil diz qual é a expectativa ao fim do segundo ano e que está indo atrás de cumpri-la. Por isso, está certa a meta do Inep de colocar os 743 pontos [na escala Saeb]. Mas, é desejável, daqui a alguns anos, que a gente discuta se não é possível subir um pouco essa barra. Foi o que aconteceu em Sobral, no Ceará. Houve a primeira, a segunda barra e a terceira delas. Conforme foi mostrada a capacidade de entregar, as pessoas iam subindo um pouco a expectativa. Agora, é hora de colocar a alfabetização no centro, medir, saber o que está acontecendo, trocar boas práticas e, gradativamente, ir subindo mais a barra para que essa distância de renda não persista.

Agência Brasil: As desigualdades socioeconômicas regionais mudam a qualidade da alfabetização na idade certa?

Denis Mizne: No Brasil, há mais ou menos 500 cidades, ou cerca de 10% dos municípios do país, com mais de 90% de crianças alfabetizadas. Desses municípios, um número grande está entre os menores PIB do Brasil. Então, é possível alfabetizar crianças independentemente do nível socioeconômico. A maior referência de alfabetização no Brasil é Sobral, no Ceará. Não é São Caetano, São Paulo ou Rio de Janeiro, que são cidades muito mais ricas. Municípios muito pobres estão alfabetizando as suas crianças em grandes números. Então, essa desculpa não vale. Temos que saber o que tem de ser feito. Não é a renda das famílias das crianças que impede alguém de ser alfabetizado. Cabe à prefeitura, ao estado, à sociedade civil, apoiar para que essas crianças consigam efetivamente ter esse resultado.

Agência Brasil: Efetivamente, quais são os prejuízos de uma alfabetização de baixa qualidade ou fora da idade adequada?

Denis Mizne: A alfabetização é a base de tudo. Se eu não aprender a ler, eu não vou conseguir ler para aprender. A criança que sai do 2º ou do 3º ano [do ensino fundamental] não alfabetizada, o que significa a escola para ela? Como que ela consegue fazer a lição de casa, fazer as provas? Como que ela consegue ler a lousa? Ela não consegue. Então, essa criança não vai abandonar imediatamente a escola, porque é muito pequena, os pais vão mandá-la para a escola. Mas quando chegar à metade do fundamental 2, ou ela vai abandonar ou, se persistir, terá um desempenho muito, muito baixo.

Agência Brasil: E a médio e longo prazos?

Denis Mizne: Não é um prejuízo somente para essa criança, é para o Brasil. À medida que as crianças não terminam a escola, diferentemente do esperado, não vão poder contribuir com o país da mesma maneira, não irão para ensino superior, ao ensino técnico, e vão ter muitas limitações. Há décadas, o Brasil paga o preço de não dar atenção total à educação básica. Não é suficiente alfabetizar a criança no segundo ano, mas é uma condição absolutamente necessária para que se possa ter uma educação de qualidade e dar também às escolas essa sensação de que toda criança é capaz de aprender.

Agência Brasil: Qual o diferencial de Sobral, no Ceará, para ter conquistado bons índices na educação básica?

Denis Mizne: Prioridade política. Em 2005, Sobral era o município de número 1,5 mil no ranking equivalente do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], que avalia o desempenho no fim do 5º ano. Em 2015, Sobral foi o número um, ou seja, subiu 1,5 mil posições em dez anos. Fez isso com trabalho, foco, apoio aos professores, medição para saber o que está acontecendo, e consequências. Se está indo bem, ótimo. Se não está indo bem, o que precisa mudar para ir bem? Lá eles valorizaram se as crianças estavam aprendendo. Porque é para isso que existe a escola, fundamentalmente, para garantir que as crianças consigam se desenvolver, ter seu direito à educação garantido. Aos poucos, isso foi se expandindo a tal ponto que, hoje, Sobral vai bem, não só na alfabetização, mas em todo o fundamental 1, no fundamental 2 e, agora, no ensino médio.

Agência Brasil: E virou exemplo de excelência.

Denis Mizne: O Ceará foi o primeiro a pegar a experiência de Sobral e replicar para todos os seus municípios e se comprometeu a apoiá-los. O ministro [Camilo Santana, do Ministério da Educação] foi governador do Ceará, e a Isolda [Cela], que foi secretária-executiva [do MEC], foi secretária de Educação de Sobral e do Ceará, e governadora do Ceará, levaram essa experiência para todo o país, por meio do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. É preciso sustentar isso no tempo. A gente está só no segundo ano do Índice Criança Alfabetizada. Desejo que isso vire uma política de Estado.

Agência Brasil: Surpreendem os resultados do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em que crianças que não compreendem leituras, sem falar no aprendizado abaixo da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matemática e ciências?

Denis Mizne: Não surpreende, porque não tem milagre. Não há jeito de ignorar os primeiros anos da escola e tentar recuperar tudo aos 15 anos de idade. A aprendizagem é um processo contínuo e que depende de uma coisa para chegar na outra. Se há buracos e eles são ignorados, não tem como desenvolver as próximas habilidades. Então, o descaso com o tema da alfabetização gerou muitos prejuízos. A boa notícia é que não se pode mais falar em descaso, onde todos os governadores estão comprometidos e, praticamente, a totalidade dos municípios fazem a prova do ICA. E ainda, há, agora, incentivos tributários associados à alfabetização, algo que tem muito valor no mundo político, porque ganha-se mais orçamento se eu conseguir fazer bons progressos em alfabetização. O gestor tem apoio do MEC, apoio dos estados, apoio da Fundação Lemann, do Instituto Natura, da Associação Bem Comum, todos trabalhando em direção a garantir a alfabetização. Fizemos uma virada de página importante e vamos colher esses resultados. Não podemos desistir. Ainda tem 40% de crianças não alfabetizadas. Temos que ir atrás e garantir que isso aconteça e, gradativamente, ir melhorando esse processo.

Agência Brasil: O Indicador Criança Alfabetizada usa uma metodologia censitária que avalia todos os alunos do 2º ano do ensino fundamental 1, por meio das avaliações estaduais da educação básica alinhadas ao MEC. A Fundação Lemann concorda com a substituição do Saeb, que faz avaliações por amostragem, pelo novo indicador?

Denis Mizne: Concordo. O Saeb do segundo ano tem uma amostra muito pequena e ele trouxe muitos problemas. O Saeb não é feito para avaliar o aluno. Desde que foi criado, 20 anos atrás, a função do Saeb é avaliar o sistema. O Saeb demora muito para sair, acontece a cada 2 anos, mas é divulgado quase um ano depois da prova, o que é um absurdo. Deveria ser muito mais rápido, mas não é. O Saeb não é uma avaliação para dizer se o aluno está indo bem, mas para dizer como está indo a educação no Brasil, no geral. O que é importante e poucos países fazem. O Brasil faz. Mas para dar mais velocidade, priorizar, oferecer suporte e ter consequências, ter incentivos, é preciso ter uma prova em uma frequência menor e que seja censitária. Por isso, o Índice Criança Alfabetizada é uma boa ideia, porque é censitário e acontece todos os anos. Acho que, a cada ano, conforme for se aprimorando, o índice estará melhor. O importante é que ele foi abraçado.Fonte: Daniella Almeida – Repórter da Agência Brasil