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Jovem que luta contra casamento e gravidez precoce em TIMBIRAS recebe prêmio em SÃO Paulo

Alice Juliana de Sousa, 21 anos, educadora social, tornou-se mãe muito cedo. Tinha apenas 17 quando engravidou. Foi uma gestação não planejada, como a de uma amiga da mesma idade. Com 29 mil habitantes, a sua Timbiras, no Maranhão, é uma típica cidadezinha do interior onde – como ela diz – todo mundo sabe o que você faz ou deixa de fazer.

“Aqui a moça tem que casar virgem, senão a família fica difamada. O sexo é tabu nas conversas entre pais e filhos. Na escola, os professores de biologia também não se aprofundam muito nas aulas sobre reprodução humana”, descreve. “Foi só quando aconteceu comigo que percebi a importância de oferecer aos jovens informações de qualidade sobre sexo, direitos reprodutivos e formas de se preservar”, afirma. Uma filha nos braços poderia, com todas as responsabilidades que a maternidade acarreta, ter atrapalhado Alice Juliana. Mas ela passou no vestibular quando Juliane Beatriz tinha só dois meses, e segue estudando biologia na Universidade Federal do Maranhão, no campus do município de Codó, há 25 quilômetros da sua cidade natal.

A experiência pessoal com a gravidez na adolescência e os novos conhecimentos plantaram em Alice Juliana um desejo. “Quanto mais eu aprendia, mais crescia a vontade de falar para todo mundo que aquilo estava errado”, diz.

Foi desta conclusão que, em 2016, nasceu o grupo Juventude em Ação Social Comunitária (Jasc), fundado e coordenado por ela, que chamou amigas e amigos para a empreitada. No primeiro momento, a ideia era socorrer crianças muito pobres.

O ponto de partida foi uma mobilização para ajudar sete filhos de uma mulher da comunidade que se suicidara.

“Nós nos juntamos para recolher mantimentos, produtos de higiene e materiais escolares para eles, e acionamos os serviços públicos”, lembra Alice Juliana.

Como estava fortemente envolvida com as discussões de gênero e ciente do quanto falar sobre isso com pessoas vulneráveis poderia mudar perspectivas, ela passou a organizar as atividades do Jasc nesta direção.

“Fomos buscar outros públicos. Logo, adolescentes e mulheres se aproximaram. Hoje, no grupo tem o recorte Nós Somos a Luta, que articula gênero e proteção”, diz a estudante, que concorre na categoria Educação.

No grupo, todos são voluntários, dividem as tarefas e realizam as atividades em espaços cedidos pela comunidade. O foco é o fortalecimento da autoestima e o desenvolvimento de estratégias de independência econômica para evitar a violência de gênero.

“Nossa intenção é mostrar a meninas e jovens mulheres a importância de conhecer o nosso corpo – para entender o que nos dá prazer e também para nos proteger. Mostramos que a gente precisa de autonomia para decidir se quer ter filho, quantos e quando. Que as mulheres são livres, podem se relacionar com quem quiser e sem preconceitos”, diz Alice Juliana.

Todo mês, o grupo realiza uma oficina com adolescentes dos bairros de Mutirão, São Sebastião e Horta Anjo da Guarda. Nos encontros, discutem a importância do trabalho em equipe, da rede de apoio e dos canais de denúncia. Há um momento reservado para a contação de histórias inspiradoras de jovens mulheres que desafiam o papel que a sociedade impõe a elas.

São donas de pequenos empreendimentos, meninas que se destacam nos estudos, em áreas consideradas masculinas, como a matemática.

Muitas revelam que se dão bem nos esportes e goleiam meninos no futebol.

“Para estimular projetos de autonomia, duas vezes por ano fazemos oficinas sobre atividades que podem gerar renda, como produção de salgadinhos e doces”, afirma. Duas vezes por ano, o grupo promove oficinas de beleza com serviços de manicure, pedicure, cabelo e maquiagem. Também apoia o encontro anual Cacheia Timbiras, que incentiva a assumir os cabelos negros e cacheados.

Paralelamente, Alice atua como educadora da Plan International Brasil, em um projeto que desenvolve atividades socioeducativas e recreativas em cinco comunidades da região. “Falamos dos problemas do casamento infantil e da gravidez precoce para um público de meninas de 13 a 18 anos, além discutir com pais e outros homens”, revela.

Ela acredita que, assumindo cedo as responsabilidades do casamento, as meninas abandonam a escola e acabam reproduzindo a miséria. Para ela, a mãe que não pode estudar e ter acesso a oportunidades de trabalho, em geral não oferece boas opções aos filhos.

As atividades do Jasc atingem diretamente 60 adolescentes e 40 mulheres adultas. E fala com plateias que às vezes reúnem cem pessoas. Mais de quinze histórias de superação já foram contadas nos eventos do grupo. “Temos depoimentos de meninas que se mutilavam, retomaram a autoestima e se sentem fortes para compartilhar seus exemplos”, diz Alice Juliana.

Revista Marie Claire

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